30 de abril de 2010

Mundo Cão

Sentada em seu banquinho de madeira, acompanhada de um Vira-Lata, a velha rendeira misturava com os fios todas as suas memórias, seu cotidiano e imprimia em cada ponto de arremate um desejo de futuro. Certa tarde, latido firme, correu o cão a receber o mascate que chegava. Chegava ao terreiro da velha uma proposta tentadora: seu trabalho iria à loja de artesanato da capital. Figuraria entre outros trabalhos, balaios, colares e colagens de todos os tipos.
Copiando e colando símbolos e significados, procuramos nos quatro cantos do planeta todos os significantes sedutores. Tapetes, roupas, músicas, ídolos e ideologias. Mundo complexo, sistema aberto, disposto em rede, o acesso é cada dia mais facilitado. Ficamos tão especializados nisso que buscamos somente a parte que nos interessa. Desconsiderando todas as memórias e histórias de cada aquilo que nos seduz, nos identificamos e firmamos identidade no imediato das coisas. Pouco tempo depois, a firmeza dessa identidade é posta à prova, surge algo novo, que parece ser imprescindível. Traduzimos então à nossa maneira e à nossa conveniência aquilo que para a velha rendeira era o resultado de um trabalho bem menos imediato. Nessa tradução nos esquecemos, quase que por convenção, de todas as memórias e vivências que ela punha em suas rendas. Estabelecendo mais uma conexão entre os pontos que nos atraem, seguimos na tentativa de esgotar as possibilidades. Nos cobramos a capacidade de uma identificação global, de processamento semelhante àquele correspondente às máquinas, de juntar todas as qualidades e qualificações possíveis e imagináveis num exemplar único, espetacular.
Diferentemente do Vira-Lata, o Pitt-Bull, tão manipulado geneticamente na tentativa de se criar um híbrido de extrema capacidade em ser agressivo, preciso e competitivo, trouxe da junção sedutora de todas as qualidades presentes nas raças que compõem seu ser, um pequeno inconveniente: uma porcentagem alta de exemplares sofre de displasia, origem de uma dor crônica que acaba contribuindo com o seu temperamento e seu comportamento muitas vezes nada conveniente. O Vira-Lata em questão, cachorro não menos híbrido, mas criado no terreiro, solto e largado às faculdades que apareciam, às vezes latia de fome, às vezes de satisfação; ora recebia afagos da velha, ora uma repreendida em vara de marmelo.
Latiu ainda mais firme ao ver o mascate sumindo na estrada. A velha rendeira ia pensar a respeito da proposta; não era decisão a ser tomada assim, no imediato de um encontro apenas. Sentia sem se dar conta, que aos humanos e caninos cabia tarefa mais nobre do que o processamento mecânico de todas as imagens, idéias, símbolos e significados, propostas e possibilidades. Sabia que à eles estava reservada a condição de dar um passo além, de ousar latir ao desconhecido, encará-lo de frente, obrigando-o a entender e participar conjuntamente no processo de mudança e criação de novas conexões. Naquela noite, custou a pegar no sono imaginando o destino de suas rendas, o que fariam com a história produzida por suas mãos.